Projeto Atlas das Nuvens – Janeiro : O mesmo mar – Amós Oz

O banal é sublime…O_MESMO_MAR_1395201832B

Ah se todos os homens tivessem a brilhante idéia de valorizar as bibliotecas públicas!

Graças a biblioteca aqui da minha cidade, pude dar início as leituras do projeto Atlas das Nuvens, organizado por Wolney Fernandes do site Instantes Possíveis (snapchat: wolneyf). Lá vocês poderão se inteirar mais sobre o projeto que nada mais é do que a leitura de doze livros de autores que estão fora do circuito Europa e EUA, e se aventurar em novos mares e sensações.

O Mesmo Mar, é dividido em capítulos curtos e parágrafos não convencionais. Cada capítulo recebe um título interessante que interage plenamente com seu conteúdo (que leva de uma à três páginas no máximo). Sua linguagem é uma mistura de prosa, poesia e ficção mesclado a elementos biográficos presentes em alguns dos capítulos do livro.

Pude sentir que este romance mais se parece um álbum de fotografias, onde vemos sentimentos humanos e detalhes das pessoas, em um triângulo amoroso nas paisagens do deserto do Neguev, onde por sinal mora o escritor. Amós relata em entrevista, que este foi o livro mais difícil de escrever em toda a sua carreira. Foram quase cinco anos de muita dedicação.

Surge uma certa estranheza durante a leitura, pois tudo parece desconexo e que não dará muito certo a conclusão da narrativa. Mas quando você se dá conta, já está em alto mar, imerso naquela ambientalização, economizando para que o livro não termine.

A questão judaica parece sempre estar presente na obra de Amós Oz  através de muitas metáforas e algumas alusões a um  temperado triângulo amoroso.

A vida é oceânica

Albert Danon, é um contador fiscal que trabalha em casa. Um homem de sessenta anos que perdera a esposa vitimada pelo câncer. Seu filho, Enrico David (Rico), decide viajar pora o Tibet por um bom tempo para esquecer a morte da mãe e deixa para trás Dita, uma jovem independente e livre. Ela é uma espécie de namorada sem compromisso de Rico e na ausência dele, vai morar na casa do ‘sogro’ depois de receber um golpe de um produtor para o qual ela vendera seu roteiro ficando assim, sem dinheiro.

O Sr. Danon se encanta por Dita e fica difícil para ele suportar sua presença na casa sem sentir-se culpado. Tudo isto é apresentado de uma forma poética, como um jogo de esconde-esconde. Enquanto isto, Rico se consola com Maria, uma prostituta portuguesa já não tão jovem mas, que acalenta a solidão do jovem viajante. Esta relação é um tanto freudiana. Há algo de ‘Complexo de Édipo’ no ar. Pelo menos a mim pareceu.

Ainda que morta, a presença da mãe  é  constante demonstrando sua influência na vida da família. Há passagens belíssimas sobre sua morte, e textos que fazem alusão a sua presença mesmo depois disto.

Talvez uma forma do autor lidar com a morte da própria mãe que se suicidara. Em nenhum momento há moralismos, condenações a ninguém. Todos são livres e tudo parece tão compreensível.

É uma narrativa delicada, sem picos dramáticos porém muito envolvente. O clima é de pequenos cuidados e afetos, redenção dos homens e comunhão final. Contudo, nota-se que essa salvação é transitória: ondas que quebram suavemente, enquanto os personagens enfrentam suas guerras íntimas, suas pequenas tragédias, suas fragilidades: o mesmo mar.

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