O Livreiro de Cabul – Asne Seierstad

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Åsne Seierstad , jornalista norueguesa, nascida em 10 de fevereiro de 1970 é licenciada em filologia russa e espanhola e em história da filosofia pela Universidade de Oslo. Atua como correspondente de guerra desde 1994 , cobriu diversos confrontos internacionais para meios de comunicações escandinavos, holandeses e alemães, o que lhe rendeu prestigiosos prêmios. Asne é uma estrangeira em meio a uma cultura extremamente mal-compreendida, que gera devido a tantas notícias, um mal estar e certa estranheza ao ocidente.

Em 2002, após a queda do regime talibã, durante três meses viveu na casa de Sultan Kan, um livreiro em Cabul, e cujo nome verdadeiro é Shan Mahammad Rais. A partir dessa convivência surgiu esta obra, que é uma narrativa — e uma reportagem — sobre a condição em que vivem as famílias, e principalmente, as mulheres afegãs. O livro rapidamente tornou-se um grande sucesso mundial e foi traduzido para várias línguas. A tradução para o português foi feita pela tradutora norueguesa Grete Skevik.

O livreiro de Cabul pode ser classificado como um livro-reportagem, uma crônica de viagem como as crônicas do século XIX, estruturado com todo o cuidado para não ser piegas e não “humanizar os fatos narrados, fugindo da realidade (tendência deste gênero de livro que trata sobre dramas humanos). Foi considerado um livro de literatura  romântica e jornalística.

Pág. 17:  É. Podem queimar meus livros, arruinar a minha vida, podem até me matar, mas nunca poderão destruir a história do Afeganistão.

Mesmo tendo tantos resguardos, a autora foi processada pela família, que alega ter sofrido transtornos causados pelas revelações relatadas no livro.  O resultado do julgamento foi a doação de uma parte dos direitos autorais para uma fundação que visa promover a literatura afegã, sugestão da própria escritora.

Por mais de vinte anos, Sultan Khan enfrentou as autoridades, tanto comunistas quanto do Talibã, para prover livros aos moradores de Cabul.

 Ele foi preso, interrogado, encarcerado e assistiu os soldados talibãs queimarem pilhas e pilhas de livros nas ruas. Ainda assim, persistiu em sua paixão pelos livros.

Chegou a esconder milhares de exemplares em sótãos pela cidade, alimentando o sonho de ver seu acervo de 10 mil volumes sobre história e literatura afegã ser transformado no núcleo de uma nova Biblioteca Nacional, semeando alguma luz em um dos lugares mais sombrios do mundo.

Depois de viver três meses em Cabul, com o livreiro Sultan Khan, a jornalista norueguesa  compôs este retrato das contradições extremas e da riqueza desse país. Um relato do cotidiano de uma família islâmica e das dificuldades deste povo para obter conhecimento e se comunicar.

Um retrato íntimo de um homem, seus princípios e sua família; enquanto enfrentam os desafios e tensões diárias, os integrantes da família tentam também viver uma certa normalidade por meio do trabalho, de um dia de compras, cozinhando em um momento e se divertindo no outro, casando e dividindo alegrias.

Pág. 11 : Velho, pensaram os pais. O que não necessariamente era uma desvantagem. Quanto mais velho fosse o homem, mais pagaria pela filha. O preço de uma noiva é determinado pela idade, beleza e qualidades, e pela posição da família.

As mulheres, em especial, são protagonistas de relatos impressionantes. Mesmo após a queda do Talibã, submetem-se a casamentos arranjados, maridos poligâmicos e a limitações para viajar, estudar e se comunicar com os outros.

Sultan Khan, é inspirado em um livreiro de carne e osso. Embora tivesse um comportamento liberal e progressista na área da cultura, ele dirigia a família com mãos de ferro, seguindo os preceitos do fundamentalismo islâmico no trato com as esposas e filhos.

Sem fazer concessões, a autora declara sua admiração pelo patriarca do clã.  Mesmo admitindo que algumas ações de seu anfitrião são condenáveis sob seu  ponto de vista e a educação que recebeu.

Sem esconder a opressão vivida pelas mulheres afegãs, ela investe em outro ângulo da mesma questão, revelando que as relações de gênero no Afeganistão são bem mais complexas do que sonha a filosofia da cultura ocidental. Os homens de lá também vivem oprimidos, tanto por regimes que cerceiam as liberdades civis, quanto pelo peso da tradição.

Foi uma experiência de leitura marcante que me fez agradecer por tudo que tenho e as oportunidade que recebi para sempre melhorar a educação e minha liberdade quanto mulher.

Deixo  recomendada esta leitura.

Minha nota: 9.0

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