Willian Wilson – Edgar Allan Poe

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Em seu conto “William Wilson”, Edgar Allan Poe conta-nos a história de um rapaz que encontra, logo no primeiro dia de escola, um colega com o mesmo nome que o seu. Mas as semelhanças não se limitam ao nome, em tudo eles são iguais: na forma de agir, na forma de andar, na forma de falar e de se vestir, sendo a única diferença palpável (ou, mais corretamente, indicada pelo narrador) a voz deste duplo, que era sempre sussurrada.

Um subconsciente sussurrado.

É interessante notar que, desde os tempos de escola, o narrador falava sobre sua relação competitiva com seu duplo, e como ele estava sempre na defensiva, temendo ser subjugado por este, mas nunca falou de forma direta sobre a relação deste outro William Wilson com os outros colegas.

Apenas o narrador notava os deboches de seu sósia – a eterna imitação de suas maneiras – e apesar de ser grato por isto, sempre achou curioso como isto poderia acontecer. O narrador também odiava a forma aparentemente “superior” que seu duplo se comportava.

william-wilson-de-edgar-a-poe-1-638Quando, ainda na escola, ele se dirige ao quarto de seu rival, ele percebe que não era o seu “irmão gêmeo perdido”, mas um garoto sem importância. Pensa que se iludira, mas não percebe que a sua ilusão não se restringia ao engano de quarto. Podemos imaginar que este duplo sussurrante fosse uma compensação para a fraqueza do supereu do personagem principal, anunciada logo nos primeiros parágrafos.

Ele apenas diz que ele era o segundo na hierarquia estudantil, atrás apenas do outro Wilson, mas nunca disse se isto era um “consenso” entre todos os estudantes ou se assim ele acreditava que fosse.

Como forma de proteger-se, fantasiava que era denunciado por outrem quando na verdade ele próprio deveria denunciar-se, provavelmente de maneira inconsciente. O narrador, aliás, não dá ao leitor o seu verdadeiro nome, que seria também o de seu duplo, por images (2)vergonha da história que está contando. Em vez disso, numa brincadeira de Poe, ele adota um pseudônimo que é formado por dois anagramas dotados de significados: William pode ser Will i am (Serei eu?, em português) e Wilson, Wil’ son (Filho de Wil, também em tradução livro).

Explorado de diversas maneiras, com personagens semelhantes, idênticos ou proporcionalmente inversos um ao outro, o tema do duplo tem longa trajetória na literatura. Datado de 1839, William Wilson, o conto, não é o primeiro a abordar o tema do duplo, que, de acordo com Freud, nos acompanha desde os primórdios da psique humana. Ele seria a parte de nós mesmos que estranhamos e relutamos a reconhecer.

No final da história, o narrador consegue assassinar seu implacável perseguidor, que estava sempre dentro de si, mas acaba com isso matando uma importante parte de si mesmo. Paradoxalmente, a partir deste momento é que ele se torna capaz de sentir culpa pelo que fez, pois talvez este seu supereu projetado não tenha morrido, mas se internalizado quando de sua “morte” externa.

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