10 Considerações sobre Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? – de Philip K. Dick

androides-sonham-com-ovelhas-eletricas-cinta (1)1 – Publicado originalmente em 1968, Androides Sonham Com Ovelhas Elétricas? é o registro de um tempo em que começávamos a questionarmo-nos sobre as questões práticas e também éticas de uma sociedade altamente tecnológica, mas que sob o olhar de Philip K. Dick nos traz um ambiente distópico em que numa linguagem metafórica e reflexiva tratamos de questões essencialmente humanas;
2 – Adaptado para os cinemas no clássico Blade Runner – O Caçador de Androides, o livro tornou-se um ícone da ficção científica e nos apresenta uma trama em que colonização espacial e androides são uma realidade, marcas aliás que estão presentes na literatura da época e também em grande parte da produção de Dick. No livro em questão acompanhamos vinte e quatro horas de trabalho na vida do caçador de recompensas Rick Deckard às voltas com a caça a seis androides de última geração;
3 – Então é ao acompanharmos as atividades de Deckard que o ambiente distópico vai saltando diante o leitor num mundo em que boa parte dos seres humanos emigraram após a Guerra Terminus para outros planetas e a terra transformou-se num grande entulho de bagulhos onde circulam parte dos que não quiseram partir, especiais (na verdade pessoas deficientes por causa da guerra nuclear), e androides que são proibidos de habitar o planeta, daí a função de Deckard;
4 – Neste universo então futurístico e sombrio nos deparamos com um protagonista sobrecarregado de dúvidas e dilemas que se complicam ao ter de lidar com androides de uma geração mais evoluída. Há na verdade uma desesperança implícita nos posicionamentos de Deckard, um sujeito frustrado cujo sonho é ter um animal de verdade, status de poder e riqueza neste mundo apocalíptico;
5 – Deckard, aliás é o proprietário de uma ovelha elétrica, animal que embora não presente no romance internamente, está no título do romance e ao ali estar evoca uma série de dúvidas e suposições, inclusive, a se Deckard não seria também um androide. Entretanto, a pergunta pode justamente levar-nos a um questionamento o quão humanos poderiam ser os androides ao ponto de reproduzirem nossos mesmos desejos;
6 – Mas o que o livro nos proporciona é exatamente uma grande quantidade de perguntas, na verdade perguntar é sua grande essência que se expressa através de uma linguagem fosca que é como se caminhássemos num grande labirinto em que tudo pode ser exatamente outra coisa, especialmente porque a verdade é algo que nesta obra se a encontramos ela está na camada mais profunda e envolta por um poderoso cofre. Assim, a desconfiança e a dúvida constituem-se como grandes certezas porque justamente a partir das complexidades e das dissimulações narrativas é preciso vasculhar com lupa cada personagem do romance e ainda assim nos veremos em meio a incertezas;
7 – Isto porque é um trabalho que apresenta discussões filosóficas acerca de nossa existência, existência que no caso de Deckard e talvez de toda sociedade esteja numa crise profunda afundando-se em máscaras e mentiras de tal modo que seja minimante possível sobreviver neste novo mundo caótico e sem sentido algum. Além disso, o romance ainda penetrará nas reflexões acerca do falso, que ao final é tudo que sobra visto que ao final das vinte e quatro horas Deckard descobrirá que tudo que os norteia ou lhes influência é falso, Mercer, Buster Gente Fina, etc;
8 – Talvez por isso a existência soe tão sintética no romance e que a aceitabilidade de suas realidades apenas é possível pelos sintetizadores de ânimo e pelo mercerismo. Tanto a felicidade quanto a depressão são números a serem programados em seus Penfields, o que por si só já nos deixa uma pergunta, afinal, quem são mesmo os androides.
9 – Assim, temos na verdade um romance enigmático em que é como se tivéssemos diante um gigantesco iceberg sob as águas pois Dick não nos traz respostas, mas sim a possibilidade de realizarmos milhares de perguntas que inclusive tornam irrelevante ser ele ou não um androide, pois aqui as dúvidas são de caráter extremamente humano, aliás, são os androides de Dick essencialmente humanos, e com isso joga-nos todos numa série de incertezas desconcertantes que completam-se com o final anticlímax mas dotado de grande significação e provocação;
10 – Enfim, Androides Sonham Com Ovelhas Elétricas? é uma destas leituras que te põe em movimento porque te provoca e te instiga em meio a sua desolação. Desolação, aliás, é uma palavra que combina com a obra, afinal são suas personagens compostas pela mesma desolação que o planeta, cada um com seus bagulhos internos e seus mistérios numa obra em que não há afirmação, mas dúvida diante dum jogo de espelhos em que todas as probabilidades devem ser avaliadas e dar vazão às nossas reflexões. Ou seja, esta é uma das leituras que precisamos ter sempre entre as indispensáveis;
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